Patrimônio Arquitetônico

Apesar de descoberto em 1503 e doado como Capitania Hereditária em 1504 a Fernão de Loronha, o Arquipélago de Fernando de Noronha permaneceu abandonado por mais de dois séculos, recebendo abordagens passageiras de navegadores de várias nacionalidades.

No século XVII os holandeses ali permaneceram por 25 anos. Quase nada existe como marca desse tempo, afora uma parte das muralhas da atual Fortaleza dos Remédios (onde um reduto fora por eles construído, em 1629) e os espaços dos experimentos agrícolas.

Os relatos desse tempo falam de “armazéns”, “casas de moradia”, “entrepostos de mercadorias”, “curral”, “hortas”, uma pequena “Congregação Reformada Calvinista” entre outras evidências construtivas para uma ocupação tão longa. Nos “Jardins Elizabeth”, faziam culturas agrícolas experimentais, sobretudo o anil.

Conjunto Histórico do Arquipélago de Fernando de Noronha

Fernando de Noronha pelas suas memórias, histórias, tradições e das narrativas que contribuem para formação da identidade cultural do País.

Reconhecendo o seu valor histórico e cultural e sua importância o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), aprovou 22 de junho, o tombamento do Conjunto Histórico do Arquipélago Fernando de Noronha. Com a decisão, as fortificações e o conjunto urbano da Vila dos Remédios, incluindo algumas de suas edificações históricas, passam a ser Patrimônio Cultural do Brasil.

Vila dos Remédios

Vista da Vila dos Remédios, Arquivo ATEDFN

Evolução Urbana da Vila Dos Remédios

E no espaço dessa “Vila” holandesa foi justamente onde surgiu a Vila dos Remédios, no século seguinte, após a definitiva ocupação por Portugal, através da Capitania de Pernambuco.

A Vila dos Remédios foi o local escolhido tanto pelos holandeses como pelos luso-brasileiros como principal núcleo urbano de Noronha. As condições estratégicas deste local eram evidentes: próximo a uma corrente d’água denominada Riacho Mulungu e de outras nascentes; de fácil acesso à Enseada do Cachorro, que servia eventualmente de ancoradouro; a nascente de água potável transformada depois na Bica do Cachorro; o acesso direto à nova fortaleza (Remédios). Tudo fazia crer ser esse o local ideal para a implantação da principal Vila do Arquipélago.

O traçado urbanístico da Vila dos Remédios, com sua estrutura planejada, era composto por duas unidades espaciais como dois pátios. Nela ficavam a Administração, com seus prédios públicos, os alojamentos carcerários e oficinas para presidiários, a Igreja, a Praça de Comando ou Praça d’armas, as casas de moradia, o almoxarifado, a escola, o hospital e os armazéns para estocagem da produção agrícola e gêneros vindos do continente. Enfim, no espaço superior, ficava a Administração, o poder civil, e no inferior, a igreja, o poder religioso.

Toda a área foi calçada em pedra e as edificações construídas foram sempre de grande porte. Vale destacar que uma das principais funções da Vila, na sua origem, foi dar suporte ao sistema carcerário também implantado a esse tempo. Estrategicamente a Vila não deveria ser vista do mar.

Também fez surgir o sistema viário calçado por toda a ilha, utilizando o modelo “cabeça de nego”, havendo sempre a preocupação com a drenagem das águas pluviais e a conservação do solo, procedimento este adotado nos pátios e ruas que definem a Vila.

Durante mais de duzentos anos esse núcleo foi sendo usado e conservado na sua estrutura original, com pequenas modificações e inclusões. Em 1938, quando da entrega do arquipélago à União, arquitetonicamente a vila estava extremamente bem cuidada.

As grandes interferências e desfigurações foram sentidas, na sua maior parte, a partir de 1942, com a ocupação ocorrida na II Guerra Mundial. Perdeu-se, então, parte da face urbana antiga, surgindo a influência da construção pré-fabricada, denominados popularmente de IGLUS pela sua praticidade em tempos de emergência, tornando-se um referencial nessa tecnologia.

Conjunto Histórico da Vila dos Remédios

Vila dos Remédios

Principal núcleo urbano da Ilha, sediava desde o século XVIII a administração, os alojamentos carcerários e oficinas para presidiários; a igreja; a Praça de Comando ou Praça d’armas; as casas de moradia; o almoxarifado; a escola; o hospital e os armazéns para estocagem da produção agrícola e gêneros vindos do continente. O conjunto urbanístico da Vila guarda edificações de grande valor histórico, como a Igreja Nossa Senhora dos Remédios, as ruínas e os pátios seculares, além do Palácio São Miguel, sede da administração de Fernando de Noronha, erguido pelos militares do Território Federal de Fernando de Noronha (TFFN) por sobre as ruínas da “Diretoria do Presídio”.

 

Igreja Nossa Senhora dos Remédios

Igreja em 1985, Arquivo ATEDFN

Tombada pelo Iphan em 1981, é o principal templo católico de Fernando de Noronha. Teve sua construção iniciada em 1737 e concluída em 1772. Ornamentos e bens culturais moveis foram acrescidos, finalizando em 1784. É em devoção de Nossa Senhora dos Remédios, padroeira de Fernando de Noronha, que é festejada no mês de agosto. Hoje elevada à categoria de paróquia pela Diocese de Recife e Olinda.

Fortaleza Nossa Senhora dos Remédios

Tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 1961, é a mais importante das dez fortificações erguidas nos séculos XVII e XVII para defender a ilha. Está localizada sobre uma colina, entre o Porto de Santo Antônio e a Praia do Cachorro. Sua implantação foi definida a partir de uma ponte sobre o riacho Mulungu e uma estrada que segue todo o flanco da colina até suas muralhas. Esta Fortaleza foi montada sobre um primitivo reduto holandês, erguido em 1629.

Abrigou correcionais no tempo do presídio comum e do presídio político, bem como soldados durante a II Guerra Mundial. Desde a sua construção o Forte dos Remédios sofreu várias intervenções e ampliações. Recentemente, o IPHAN realizou uma obra de restauração e requalificação em toda a área, como a recuperação dos espaços originais, a reconstrução da Capela, implantação de banheiros, entre outras melhorias.

Atualmente em uma nova gestão propõe realizar instalações de lojas, cafés, livrarias e consequentemente dar sustentabilidade e dinamizar o espaço com programação de atividades culturais, como exposições, concertos, filmes dentre outras.

Palácio de São Miguel, antiga Diretoria do Presídio

Tombado pelo IPHAN em 2017, sede da Administração do Distrito Estadual de Fernando de Noronha, foi construído em 1947/48, por sobre as ruínas da antiga “Diretoria do Presídio”. Esta era um casarão colonial situado no centro da Praça d´Armas, da Vila dos Remédios, com janelas ogivais, um só pavimento e grande escadaria de acesso. O palácio foi erguido por pessoas da própria ilha, sob a coordenação do expresso político comunista Mariano Lucena.

Sua construção e adequação arquitetônica teve como objetivo acolher a sede do governo do Território Federal Militar. Em alguns períodos de governo, o pavimento inferior serviu também como residência do Governador. No seu interior, em algumas paredes, foram deixadas evidências da construção anterior, em pedra, fruto da mão-de-obra carcerária então existente.

Inaugurado em 1947, possui móveis de meados do século e duas telas de valor ornamental e de grande porte, obras do pintor pernambucano Wash Rodrigues, levado a Noronha exatamente para executar esse trabalho. Há também um vitral, com a imagem do arcanjo São Miguel, em tamanho natural, feito pela vitralista Aurora Lima, discípula do artista alemão Henri Moser, restaurado no ano 2000 por seguidores da escola de Moser.

O Palácio de S. Miguel passou por um processo de requalificação em 2017 e foi restaurado pela Administração do Distrito Estadual, que realizou intervenções na cobertura, tacos originais do piso, escadaria, vitrais e móveis integrado.

Assim como o monumento doado pelo governo português, construído em homenagem aos aviadores Gago Coutinho e Sacadura Cabral, localizado em frente ao palácio e os canhões do século XVIII, retirados do Forte do Bom Jesus do Leão e duas Baterias Antiaéreas, do século XX, da II Guerra Mundial, instalados ao lado do monumento. Hoje funciona como sede da Administração do Distrito Estadual de Fernando de Noronha.

Outras Edificações em Ruínas

Ruínas do Armazém de Produtos Agrícolas

Uma edificação de grande valor da arquitetura civil de Noronha pelas suas dimensões e como o comprova a iconografia de muitos períodos, na qual o prédio aparece com muitos usos. É hoje objeto de interesse como marco da recuperação da cenografia da Ilha.

Entre várias funções, serviu como residência do Diretor do Presídio, armazém de produtos agrícolas, almoxarifado, padaria, marcenaria, aquartelamento de soldados no período da II Guerra Mundial e, novamente, como residência de ilhéus. Por fim, abandonado, começou a se deteriorar, sabendo-se com certeza que ele estava de pé e ainda coberto em 1972.

Os danos na edificação já são bastante significativos e precisam ser combatidos, para que não haja a perda total desse excelente exemplar da arquitetura civil da ilha. A principal proposta de requalificação é transformá-lo em um espaço cultural contemporâneo, pela sua excelente localização e proporções arquitetônicas.

Em 2003, foi registrado no Cadastro Nacional de Sítios Arqueológicos – CNSA -, do Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

Ruínas do Armazém de Cereais

Edificação de grande porte, localizada no final da Praça, diante da Igreja dos Remédios, servia para a estocagem de cereais e, depois, como “garagem do presídio”. Abandonada, foi sendo destruída e, em 1990, parte dela foi restaurada para abrigar o Terminal Turístico da Praia do Cachorro, inicialmente como apoio aos cruzeiros marítimos iniciados naquele ano. Nele estão localizados diversos equipamentos de apoio a atividade turística, lojas, inclusive o famoso Bar do Cachorro.

Ruínas da Aldeia de Sentenciados

Em ruínas, a Aldeia dos Sentenciados única edificação remanescente do sistema carcerário que funcionou em Fernando de Noronha por mais de 200 anos, a “Aldeia dos Sentenciados” é uma construção notável, de grande porte, com espaços internos bem definidos, projetado para abrigar presos solteiros.

Localizado na Vila dos Remédios, na antiga Praça d´Armas, próxima ao Palácio São Miguel, teve – no século passado e a partir da permissão para serem enviadas mulheres presas ao arquipélago – também a denominação de “Presídio Feminino”, por abrigar as sentenciadas. No seu interior, existiram celas coletivas, espaços para presos confinados, padaria, refeitório, cozinha, setores administrativos e pátios internos “a céu aberto.”

Diante dessa edificação os presos de bom comportamento, que residiam com suas famílias, eram obrigados à chamada matinal a cada dia. Ao lado, ficam as ruínas do Clube Atlântico, erguido sobre o que restava do antigo chalé do Cabo Francês. Durante a II Guerra Mundial, o edifício abrigou soldados e depois, abandonado, passou a servir como residência improvisada, situação que mantém até hoje.

Ruínas da Antiga Escola –Atualmente Agência Bancária

As primeiras experiências de ensino, em Noronha, foram improvisadas. Usou-se a sacristia da igreja como ponto de apoio à escola. No final do século passado, algumas edificações simples, erguidas para serem residências, foram improvisadas como escolas para meninos e para meninas. Já neste século, na Praça d´armas, defronte à “Directoria do Presídio”, uma edificação foi construída para ser escola, com duas salas de aula (classe feminina e classe masculina) e a diretoria escolar.

Um solário completava a bela edificação, com o brasão da República no alto. No período da II Guerra Mundial, essa casa foi usada como sede da Rádio PTI, acrescentando-se no solário os espaços que atendiam a esse fim e uma antena na parte posterior. Para acesso ao solário uma escada foi colocada também na parte posterior do prédio. Em estado de abandono, a edificação foi recuperada pelo Banco Real, já instalado no Palácio de São Miguel desde 1975, tornando-se a primeira agência bancária do Arquipélago.

Na impossibilidade de restaurar-se o solário, foi-lhe colocado uma coberta em telha canal, semelhante ao utilizado na Igreja vizinha. Dentro, um painel retrospectivo demonstra, iconograficamente, as faces dessa edificação, através dos tempos. Ao seu lado existia o Cinema Rio Branco, que marcou época nos anos 50/60, hoje está totalmente destruído.

Ruínas do Reduto de Sant’Anna

Integrando o sistema de fortificações, o Reduto de Sant’Anna, construído em meados do século XVIII, destinava-se à defesa da Praia do Cachorro, sendo um local onde eram guardadas as munições de guerra e demais apetrechos de artilharia. Posteriormente, foi desativado para se transformar em um Quartel da Marinha, pela sua localização e pelo acesso à rampa que descia até a Praia do Cachorro sendo também utilizado como Porto. Hoje resta apenas uma pequena ruína, parte da muralha.

Ruínas da Bica da Praia do Cachorro

Uma bica secular, que serve para banho de água doce daqueles que usam a Praia do Cachorro como lazer. Localiza-se ao lado do Reduto de Sant’Anna. Está parcialmente arruinada, não existindo mais a cara de cachorro que lhe deu o nome e que era em bronze, num belo trabalho artístico. Existem registros dessa área desde o começo do século passado, sendo a bica utilizada ainda hoje.

Caminhos Seculares

A Vila dos Remédios, núcleo original, erguido no século XVIII, exigiu a construção de acessos por toda a ilha, interligando-a aos outros pontos ocupados e gerando um sistema viário feito em pedra com mão-de-obra carcerária. Destacam-se a Estrada do Pico, a Estrada da Porto, a Rua da Estrela, a Estrada da Ponte. Todos esses caminhos aparecem na planta de José Fernandes Portugal, feita em 1798.

Essas vias de acesso, construídas com pedras conhecidas como “cabeça de negro”, foram se degradando com o uso com a introdução de veículo para locomoção na Ilha. Grandes trechos sem pedra, apresentam problemas de decomposição do calçamento.

Jardim Elizabeth

Espaço utilizado como local de aclimatação de plantas, desde o século XVII. Foi também a “Horta da Vila”, pensada para abastecer a Vila dos Remédios de produtos agrícolas. Possui ainda pontes, terraços apropriados para a agricultura, estradas em pedra, fora a farta vegetação. É também um marco funcional de Noronha, como porto de reparo de navios, usando-se o material abundante nessas áreas de reflorestamento permanente.

Redescoberto em 1997, quando do levantamento dos elementos que orientariam a implantação do “Projeto Trilhas Ecoturísticas”, constitui-se um aprazível recanto, que tem hoje um fluxo turístico constante.

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